Liberdade e pertencimento: para além das relações entre territórios e existências
Por Luciana Regina Silva Rodrigues
Talvez criemos marcos para narrar, compreender, organizar e comunicar.
Um tempo. Um lugar. Um conjunto de elementos. Uma sequência de estados.
Mas será que os marcos que estabelecemos são necessariamente os limites das relações que tentamos compreender?
Uma nascente pode ser identificada. Um rio pode ser nomeado. Uma foz pode ser localizada. Nem por isso a água deixa de participar de ciclos que atravessam esses limites, essas barreiras, esses marcos.
Talvez o começo e o fim sejam formas pelas quais tornamos uma continuidade perceptível. Da estação Jabaquara à Estação Tucuruvi; da zona Sul à zona Norte da Cidade de São Paulo. Mas como seria se a continuidade não se esgotasse nessas delimitações?
Deslocar, sem um partir ou chegar.
Não é a areia em minhas mãos que me permite sentir a liberdade do mar, mas a percepção das relações presentes nos seus infinitos e efêmeros encontros com as águas.
Não é o carro que se encontra com a bicicleta. Não é o ônibus que se encontra com o trem. Sou eu e você que nos encontramos. Neste tempo, neste lugar, neste contexto – em relações perceptíveis a este momento.
Talvez instantes pareçam idênticos quando estamos alienados das transformações que os constituem.
Padrões que se repetem. Padrões que nos exaurem. Padrões que continuamente nos relacionam em desconforto.
Laços que dissolvem pertencimentos. Espaços que encantam em esvaziamentos coletivos. Construções que fogem ao nosso habitar.
Águas que não cabem em um escopo. Ventos que não atravessam pensamentos. Terras que nunca encontram nossos pés.
Posso eu escalar ventos em desertos?
Ou carregar geleiras em terras vulcânicas?
Ouço, sinto, encontro aquilo e aqueles que nos permeiam.
Na liberdade de encontrar respiros entre pertencimentos.
Meu choro são suas lágrimas. Suas lágrimas são nossas águas.
Nas relações entre existências.
Posso eu sentir ao começo e ao fim?
Quando nos constituímos entre águas e fractais.
Percebo os movimentos que não coincidem em todos os momentos. Deslocamentos, estados, necessidades e contextos que interagem para além do meu presente.
Lugares por onde estivemos. Estados pelos quais passaremos. Necessidades que virão. Contextos que nos transformaram.
Uma praça. Uma clareira. Uma ilha. Ou, talvez, um lugar que não caiba em definições – mas se preenche em sentidos, em existências, em relações.
Podemos pertencer à continuidade de uma relação sem exigir que ela continue sendo aquilo que foi.
Podemos residir em diferentes lugares, mas não necessariamente os reconhecemos como nosso habitat. Ao mesmo tempo, podemos nos reconhecer em espaços que nos possibilitem encontros em liberdade e pertencimentos.
Entre dentro e fora, entre organismo e ambiente, entre continuidade e interrupção, nos encontramos no respiro. O ar é livre; a troca também – em um contexto que nos permeia.
Padrões que reaparecem em diferentes escalas, sem exigir que cada escala seja uma reprodução idêntica da outra. Um pensamento que atravessa diferentes atmosferas, reverberando sua transformação em cada relação.
Ambientes que respiram conosco em condições que nos envolvem e nos conectam. Um habitar onde encontramos nossos pertencimentos em sintonia entre inspirações e expirações.
Sinto o ritmo que nos convida a ouvir a diversidade de padrões efêmeros. Há movimento na permanência. Há continuidade na transformação. As relações continuam existindo para além daquilo que nos é visível.
Talvez a repetição de estados alienados traga nebulosidade à percepção da continuidade das relações presentes e em iminência.
Águas em recipientes, resguardadas em seus interiores. Até que uma fissura encontre passagem. Até que o transbordar redesenhe seus contornos.
Acolher ao inesperado é pertencer ao movimento que nos integra, que nos traz à existência.
Talvez, para alguns, a liberdade pertença ao domínio de mundos. Talvez, para outros, a liberdade se constitua nos sentidos de pertencimento.
Há espaços em que encontramos abrigo. Outros em que os horizontes parecem se estreitar entre grades, paredes, fechamentos.
Como posso eu encontrar o sentido de pertencimento quando a terra que nos constitui parece se afastar de nossas próprias relações?
Terra que enraíza nossas existências. Que percorre nossos movimentos. Que acolhe nossos passos e nossas trocas.
Talvez os horizontes se ampliem aos olhos de quem os contempla. Talvez os caminhos se multipliquem entre direções e sentidos. Mas há algo que permanece entre nossos pés, entre nossas mãos. A terra que percorre. Como lama. Como pedra. Como areia.
Entre formas e densidades, há relações.
Como seria viver sem determinar previamente o que cada encontro deverá produzir?
Uma casa onde seu movimento é livre e fluido. Um lugar onde eu me encontro com os contextos que me constituem. Um ambiente onde deslocar não nos pede um começo ou um fim.
Talvez as condições pelas quais a liberdade se torna tangível residam na permeabilidade das relações que nos constituem.
Entre rotinas e hábitos, o cuidado se reverbera em nossas veias, em nossos ares, em nossas águas.
Mas como posso eu encontrar o sentido de liberdade quando os espaços que compartilhamos parecem encontrar cada vez menos lugar para nossas existências?
Talvez abrigar nos convide a pertencer a horizontes maiores que o número de leitos ou quartos. A respirar entre diferentes presenças. A encontrar movimentos próprios, relações possíveis, caminhos que se desenham enquanto habitamos.
Um lugar onde existir não se resume a estar acomodado.
A matéria e o efêmero se encontram. A percepção e o eterno reverberam.
Espaços que amparam nossas relações. Acolhem encontros e iminências. Ressoam diversidade e efemeridade.
Participamos das transformações, entre formas que se desfazem e outras que encontram lugar. Já estamos em movimento, mesmo quando não reconhecemos tantos outros deslocamentos.
Um território pode conservar suas coordenadas. Uma construção pode preservar sua forma. Uma pessoa pode reconhecer uma lembrança. Mas será que essas continuidades são percebidas em condições idênticas às de outros instantes?
A luz mudou. Quem observa mudou. As relações presentes no lugar se modificaram. Percepções visíveis para alguns, inaudíveis para outros.
Isso não significa que nada permaneça, nem que toda continuidade seja ilusória – mas que a relatividade nos é constituinte.
Pertencer acolhe a areia tanto quanto acolhe a água. Não exige contorno, nem entrada, nem permanência, nem passagem. Não há posse, nem domínio.
O pertencimento apenas encontra.
Encontra o momento em que você é você, entre águas e areias – e ressoa nossa liberdade entre pertencimentos.
A abertura à multiplicidade não exige que as diferenças desapareçam. Podemos reencontrar uma ideia sem que ela ressoe em nós da mesma maneira.
O ar que circula entre os dias quentes e frios. Os raios solares que dançam com as nuvens das estações. O céu estrelado que brinca com as sombras. Os seres vivos que perfumam, cantam e colorem o sentido do tempo.
Na liberdade das marés, pertencemos. Na elementaridade do respiro, existimos.
Para além dos movimentos, as relações permeiam nossas percepções e ressoam entre nossas águas.
Padrões se salientam, ritmos se atenuam. Fases se mesclam, tempos se harmonizam.
Talvez a visibilidade de um horizonte não esteja no desenho de fronteiras nem na percepção de contornos. Talvez a visibilidade se constitua nas relações que nos permeiam.
Somos movimento. Somos contexto. Somos ondas e abrigos.
Em ressonâncias de respiros.
A inspiração encontra seu pertencimento na liberdade da expiração. A expiração encontra sua liberdade no movimento deste contexto.
Sintonizar. Sincronizar. Ressoar.
O novo, o eterno, o contínuo entre águas, terras, atmosferas.
Ao inspirar, imergimos entre pertencimentos.
Ao expirar, emergimos entre contextos.
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Esta reflexão nasce de uma escuta das relações que permeiam nossas existências — entre territórios, temporalidades e atmosferas.
Um percurso pelas nossas elementaridades e pelas possibilidades de perceber o que se revela quando nos deixamos atravessar por diferentes contextos.
Um convite a percorrer, entre águas e respiros, as relações que continuamos a tecer.
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