Arquitetura, cidade e existência
Atualizado: 26 de mar.
Por Luciana Regina Silva Rodrigues
Especialização em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem - PUC / RS
A relação pessoa-ambiente como fundamento do desenvolvimento humano
Há cidades que acolhem.
E há cidades que silenciosamente adoecem.
Entre edifícios, fluxos e métricas, uma pergunta permanece — muitas vezes não dita, mas profundamente sentida:
Para quem, de fato, estamos construindo?
A cidade como experiência — ou como ruptura
A partir da prática profissional em Arquitetura e Urbanismo, especialmente no contexto paulistano, torna-se cada vez mais evidente uma dissociação: intervenções urbanas são concebidas e executadas sem a devida consideração sobre seus impactos no desenvolvimento humano e social.
A cidade, que deveria ser suporte da vida, passa a operar como estrutura indiferente — por vezes até hostil.
A própria noção de função social da cidade, prevista no Plano Diretor Estratégico de São Paulo, pressupõe algo que vai além da infraestrutura:
qualidade de vida, justiça social, acesso a direitos e desenvolvimento socioambiental.
Mas, na prática, essa função tem sido plenamente atendida?
Ou estaria sendo reduzida a índices, volumetrias e viabilidades econômicas?
O afastamento entre corpo, espaço e natureza
Em meio à lógica produtiva contemporânea, a natureza é frequentemente removida do desenho urbano — não apenas como elemento físico, mas como experiência sensorial e relacional.
Espaços livres tornam-se residuais.A convivência coletiva, condicionada.
E o que antes era encontro, torna-se circulação.
Surge então um cenário paradoxal:
favelas e condomínios de alto padrão coexistem
espaços públicos são reduzidos ou privatizados
projetos são padronizados, indiferentes às singularidades locais
E todos eles — sem exceção — são produtos da mesma estrutura socioeconômica.
Quem é considerado no processo de projetar?
No desenvolvimento de projetos — públicos e privados — raramente se discute:
o estado psicológico dos usuários
as relações afetivas com o espaço
os impactos sistêmicos dessas intervenções
A racionalidade técnica se sobrepõe à complexidade humana.
Até mesmo nos térreos comerciais — espaços que deveriam ser de encontro — observa-se:
dimensionamentos voltados à eficiência econômica
ausência de cuidado com experiências sensoriais
negligência às necessidades psicofísicas dos usuários
O espaço, assim, deixa de ser vivido — e passa a ser apenas utilizado.
Entre o projeto e a vida real
Quando se observa o cotidiano dos moradores, especialmente a partir da escala do interior residencial, uma percepção se repete:
Os espaços construídos estão impactando negativamente o psicológico humano.
Seja pela:
desconexão com o entorno
ausência de identidade
falta de qualidade ambiental
ou carência de estímulos sensoriais e afetivos
Essa realidade não se limita ao privado.Ela reverbera na cidade como um todo.
A cidade que se deteriora — física e simbolicamente
O problema não está apenas no que se constrói, mas também no que se negligencia:
áreas degradadas sem manutenção
imóveis vazios
crescimento desassistido
apagamento de identidades locais
Ao mesmo tempo, revisões urbanísticas e “booms imobiliários” seguem avançando.
Como aponta Medeiros (2022):
“A verticalização é pensada para pessoas de alta renda [...] contrariando a demanda real da população paulistana.”
Planejar para quem? Executar para quê?
A cidade contemporânea revela uma tensão constante:
cronogramas rígidos vs. tempos humanos
métricas objetivas vs. complexidade social
produção acelerada vs. desenvolvimento humano
Embora o Estatuto da Cidade estabeleça diretrizes como:
participação popular
justiça espacial
sustentabilidade
sua aplicação prática ainda encontra barreiras significativas.
Um exemplo cotidiano — e simbólico
Um parque recém-inaugurado, projetado para o desenvolvimento infantil, apresenta sinais de deterioração em poucos meses.
Equipamento novo. Uso ativo. Mas ausência de manutenção e pertencimento.
A pergunta que emerge não é técnica — é relacional:
Quem cuida do espaço que não sente como seu?
E mais: o que acontece com o psicológico coletivo quando o ambiente já nasce com sinais de abandono?
Cidade, medo e afastamento
O impacto da cidade no desenvolvimento humano também se manifesta em movimentos silenciosos — como a crescente emigração da classe média brasileira.
Segundo Millar e Fanini (2023), fatores como:
insegurança urbana
limitação da liberdade cotidiana
têm redefinido a percepção de qualidade de vida.
A cidade deixa de ser território de pertencimento — e passa a ser espaço de sobrevivência.
Espaço, tempo e memória
Como lembra Segaud (2016):
“O espaço cristaliza, em certas épocas, as relações sociais.”
E Pallasmaa (2011) complementa:
“Os prédios de nossa era tecnológica visam à perfeição atemporal e não incorporam o processo inevitável do envelhecimento.”
Há, portanto, uma negação do tempo — e, com ela, da própria experiência humana.
O que está em jogo
Mais do que formas ou funções, o que está em jogo é:
o desenvolvimento cognitivo
a construção de vínculos
o senso de pertencimento
a capacidade de coexistência
A cidade não é cenário.
Ela é agente.
Resultados e reflexões
E se o desenvolvimento humano depende da relação com o ambiente, como propõe Bronfenbrenner (1981), então precisamos perguntar:
Que tipo de ambientes estamos oferecendo?
Ambientes que:
acolhem ou afastam?
estimulam ou limitam?
conectam ou fragmentam?
Projetos urbanos padronizados e descontextualizados tendem a gerar:
perda de identidade
enfraquecimento do pertencimento
exclusão social
Como aponta Rocha (2024), muitos espaços são concebidos sem a participação real das pessoas, resultando em usos inesperados — ou simplesmente rejeição.
Quando a cidade escuta, ela transforma
Experiências como o Parque Augusta demonstram outro caminho:
mobilização social
participação coletiva
construção de significado
Esses espaços não são apenas físicos — são simbólicos.
São lugares onde o urbano volta a ser vivido.
A importância do primeiro contato
Assim como no desenvolvimento infantil, o primeiro contato com o ambiente importa.
Ambientes que acolhem geram:
segurança
curiosidade
continuidade
Ambientes que rompem geram:
medo
afastamento
desorientação
A cidade, nesse sentido, educa — constantemente.
Para além da sustentabilidade técnica
O desenho urbano sustentável precisa ir além de métricas ambientais.
Ele deve incorporar:
bem-estar coletivo
experiência sensorial
diversidade de usos
participação ativa
Como destacam Omole, Olajiga e Olatunde (2024), trata-se de criar cidades:
resilientes, inclusivas e emocionalmente habitáveis.
Considerações finais
Antes de projetar espaços, é preciso compreender pessoas.Antes de planejar cidades, é preciso reconhecer relações.
A arquitetura e o urbanismo não são apenas campos técnicos —são campos existenciais.
É no encontro entre pessoa e ambiente que se constrói:
identidade
consciência
desenvolvimento
Sem isso, o que se constrói pode até permanecer de pé —mas não sustenta a vida em sua plenitude.
Um convite
E se projetar fosse, antes de tudo, escutar?
E se planejar fosse, antes de tudo, sentir?
Talvez o futuro das cidades dependa menos de soluções prontas —e mais da capacidade de construir, coletivamente, novos sentidos.
Aprofunde a leitura
Este texto é um recorte reflexivo do artigo acadêmico desenvolvido como trabalho de conclusão de curso.
Para acessar a versão completa, com referências bibliograficas, fundamentação teórica e referências:
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