
O Encontro em Si
Inspiração
Habitar é, antes de tudo, reconhecer-se — e permitir que o espaço acompanhe esse movimento de descoberta.
Escuta
Este projeto nasce no limiar entre o conhecido e o possível. Um primeiro lar, ainda em construção, que se apresenta não apenas como espaço físico, mas como território de transição: da vida compartilhada à autonomia, da referência externa ao reconhecimento interno.
A principal questão não estava no espaço em si, mas na dificuldade de traduzir hábitos, desejos e necessidades ainda em formação. Como projetar para alguém que, pela primeira vez, se observa em sua própria rotina?
A orientação inicial foi deslocar o olhar: experimentar o cotidiano antes mesmo de habitá-lo. Simular usos, perceber fluxos, identificar inseguranças. A escuta, aqui, se expandiu no tempo — acompanhando um processo de amadurecimento e construção de identidade.
Compreensão
Ao longo do processo, tornou-se claro que este projeto não se tratava apenas de organizar um apartamento, mas de sustentar um processo de fortalecimento pessoal.
O espaço precisaria acolher dúvidas sem rigidez, permitir ajustes, oferecer leveza e, sobretudo, refletir uma identidade em construção. Mais do que respostas imediatas, o projeto deveria abrir possibilidades.
A busca por amplitude, luz e continuidade espacial revelou-se essencial — não apenas como estratégia arquitetônica, mas como expressão simbólica de expansão e clareza interna.
A atmosfera desejada emergiu com suavidade: referências praianas, luminosidade difusa, materiais e cores que evocam calor, movimento e acolhimento, sem excessos.
Materialização
A intervenção parte da liberação do espaço e da reconexão entre seus ambientes.
O antigo corredor de acesso à suíte é ressignificado: as barreiras são removidas e, em seu lugar, surge uma penteadeira aberta, sustentada por elementos verticais em madeira que, ao mesmo tempo, estruturam e delimitam suavemente o espaço. A luz natural passa a atravessar o ambiente, dissolvendo a sensação de confinamento e ampliando a percepção do todo.
A área social se organiza a partir da continuidade visual e da leveza dos elementos. Um único móvel articula sala de estar e jantar — discreto, funcional, quase silencioso — permitindo que o espaço respire e se projete até a varanda, cuja amplitude se torna protagonista.
A decisão de manter o fechamento original da varanda é incorporada ao projeto com naturalidade. A integração acontece não pela eliminação de limites, mas pela coerência entre eles.
A cozinha, conectada à sala por uma bancada em “U”, estrutura o cotidiano com fluidez. Cada elemento é pensado para facilitar o uso e reduzir excessos: prateleiras abertas, equipamentos acessíveis, superfícies contínuas. Um trecho em revestimento tipo tijolinho cria um campo sutil de identidade — um nicho atmosférico que ancora o espaço sem isolá-lo.
Os dormitórios traduzem nuances desse processo.
O quarto principal acolhe com luz, textura e assimetria — uma composição delicada que dialoga com o mar, com o repouso e com a intimidade.
O segundo quarto se configura como espaço de apoio e recolhimento, equilibrando foco e pausa, com cromatismo leve e mobiliário essencial.
Nos banheiros e lavabo, pequenos gestos ampliam a experiência: superfícies, desenhos e grafismos que introduzem movimento e personalidade de forma sutil.
A varanda absorve as demandas técnicas com inteligência e discrição. Um sistema de marcenaria oculta e revela conforme o uso, preservando a leitura contínua do espaço e garantindo funcionalidade sem ruído visual. Ajustes no sistema de ventilação reforçam o cuidado com o desempenho e a durabilidade.
Experiência
O espaço se transforma em um cenário de encontros:
amigos reunidos, conversas que atravessam a cozinha e a sala, gestos cotidianos que se expandem.
A integração permite que cada atividade participe de um todo maior, dissolvendo limites entre o individual e o coletivo.
Ao mesmo tempo, há acolhimento — nos materiais, na luz, na escala.
O projeto equilibra abertura e intimidade, criando um ambiente que convida tanto ao convívio quanto à permanência.







Essência
Entre paredes e aberturas, este projeto não define um modo de habitar — ele sustenta o processo de tornar-se.
Sobre a Aurb
A Aurb investiga as relações entre espaço, cidade e existência.
Mais do que projetos, propõe reflexões sobre como habitamos — e como podemos transformar — os territórios que nos formam.
Sobre a Autora
Luciana Regina Silva Rodrigues
Arquiteta urbanista e pesquisadora com foco em neuroarquitetura e relações psico-socioambientais. Atua na interseção entre espaço, comportamento e percepção, desenvolvendo projetos e reflexões que buscam integrar sensibilidade, contexto e impacto coletivo.